Com inflação em alta, renda das famílias para consumo é a menor desde 2005 | Economia

Nos últimos meses, a família do Manoel Rodrigues Campelo Junior, de 45 anos, reorganizou o orçamento doméstico por causa da alta dos preços. A carne nobre foi substituída por uma opção mais em conta e o gás de cozinha passou a ser menos utilizado.

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“O QUILO DO CONTRAFILÉ É UM ABSURDO HOJE EM DIA. NUM PRIMEIRO PASSO, A GENTE CORTA A QUANTIDADE, MAS, NUM DETERMINADO MOMENTO, A GENTE NÃO CONSEGUE CONSUMIR MAIS”, DIZ MANOEL. “NÃO TEM COMO DEIXAR DE FALAR TAMBÉM DO PREÇO DO GÁS. A MINHA ESPOSA TENTA SER RACIONAL ATÉ NO PREPARO DO ALIMENTO.”

Preço dos alimentos em alta pressiona o orçamento das famílias — Foto: Amanda Rocha/A Cidade ON/Araraquara

Pelo país, não faltam exemplos de brasileiros que estão com dificuldade para fechar a conta todo mês. Neste ano, de cada R$ 100 do orçamento das famílias brasileiras, sobram apenas R$ 41,22 para consumir, pagar dívidas e investir, mostra um levantamento da consultoria Tendências.

Isso significa que a maior parte da renda vai para itens considerados essenciais – como combustível, energia elétrica, transporte, entre outros. As famílias não tinham uma situação financeira tão apertada desde 2005, quando a renda disponível era de apenas R$ 40,98.

Orçamento apertado — Foto: Economia G1

“VOCÊ COME HOJE PENSANDO NO QUE VAI COMER AMANHÔ, DIZ LORRAINE ALVES, DE 32 ANOS. “A GENTE COMPRA O BÁSICO: ARROZ E FEIJÃO. QUANDO SOBRA ALGUM DINHEIRO, EU COMPRO UM SUCO DE PACOTE, UM LEITE, MAS É MUITO DIFÍCIL.”

Lorraine sobrevive com o Auxílio Emergencial de R$ 375. Com três filhos e grávida do quarto, ela perdeu o emprego num restaurante no início da pandemia. O marido tem feito bicos como gesseiro, mas a renda família só chega a R$ 800.

“O auxílio de R$ 1,2 mil me ajudava bastante. Quando mudou para R$ 375, piorou muito. O meu aluguel é de R$ 600. Tem mês que eu pago, mas depois fico devendo dois, três meses.”

O orçamento dos brasileiros tem sido pressionado por uma combinação bastante perversa: uma alta dos preços dos alimentos, que se arrasta desde o ano passado, e um aumento do valor dos combustíveis e da energia elétrica.

“NO MEIO DO ANO PASSADO, ITENS COMO ALIMENTAÇÃO EM DOMICÍLIO PASSARAM A PRESSIONAR O ORÇAMENTO”, AFIRMA ISABELA TAVARES, ECONOMISTA DA CONSULTORIA TENDÊNCIAS E RESPONSÁVEL PELO LEVANTAMENTO. “NESTE ANO, A GENTE VÊ BASTANTE PRESSÃO POR PARTE DE COMBUSTÍVEIS E, AGORA, TEM A ENERGIA ELÉTRICA.”

Em detalhe, os números da Tendências mostram que a situação é ainda mais dramática para os brasileiros das classes D e E, que ganham até R$ 2,6 mil por mês e sofrem mais com o aumento dos preços. Para esse grupo, sobram apenas R$ 21,63 por mês.

Renda disponível por classe — Foto: Economia G1

“Não tem escapatória. As classes mais baixas não têm como se defender muito nesse momento. A gente está com um nível de desemprego recorde no Brasil“, diz Marco Maciel, sócio e economista da Kairós. “O desemprego afetando milhões de brasileiros tende a fazer com que a capacidade de reagir ao aumento da inflação seja muito limitada.”

Em 12 meses encerrados em junho, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) já acumula alta de 8,3%. Só a inflação de itens considerados essenciais chegou a 10,5%, segundo a Tendências.

Diante de todo esse quadro, os analistas têm piorado as projeções para a inflação de 2021.

No relatório Focus, do Banco Central, os analistas consultados já projetam que o IPCA vai encerrar o ano em 6,56%, acima, portanto, do teto da meta do governo, que é de 5,25%.

 

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“NO MOMENTO, A MINHA PROJEÇÃO PARA O IPCA NO FIM DO ANO É DE 6,5%, MAS, EM FUNÇÃO DAS PRESSÕES DE TARIFAS DE ENERGIA ELÉTRICA, COMBUSTÍVEIS E ALIMENTAÇÃO NO DOMICÍLIO, ESSA INFLAÇÃO PODE PULAR PARA 7,2% COM FACILIDADE”, DIZ MACIEL.

Na próxima semana, o Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne para decidir o rumo da taxa básica de juros (Selic). Os analistas esperam um aumento 1 ponto percentual, levando a Selic para 5,25% ao ano.

Juros mais altos encarecem o custo do crédito, afetando a tomada de recursos para o investimento das empresas e para o consumo das famílias.

“AO ELEVAR OS JUROS, O BANCO CENTRAL ACABA ENCARECENDO O CUSTO PARA TODOS, NÃO SÓ PARA PESSOA FÍSICA, MAS PARA A JURÍDICA TAMBÉM”, DIZ O ECONOMISTA DA KAIRÓS. “INFELIZMENTE, A POLÍTICA MONETÁRIA, NUM MOMENTO COMO ESSE, NÃO TEM COMO SER VERTICAL, ACABA SENDO HORIZONTAL, ATINGE A TODOS DO MESMO JEITO. QUEM SE DEFENDE MELHOR É QUEM TEM O BOLSO MAIS CHEIO.”

A alta da inflação e dos juros e a limitação do orçamento das famílias podem mitigar a velocidade de recuperação esperada para o varejo e, consequentemente, da atividade econômica.

Com a melhora da crise sanitária, os analistas seguem esperando uma retomada do setor neste ano, mas esse crescimento poderia ser melhor se as famílias tivessem algum fôlego no orçamento – até maio, as vendas do varejo acumulavam alta de 6,8% no ano, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

 

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“Há ainda fatores positivos para o crescimento do consumo das famílias”, afirma Isabela. “Tem a recuperação do mercado de trabalho, principalmente do emprego formal, as políticas anticíclicas, como BEM (Benefício Emergencial de Proteção ao Emprego) e Pronampe. E a própria dissipação das incertezas com a crise sanitária.”

“O que entra como risco para a maior velocidade do consumo é a inflação, que pressiona a renda disponível das famílias”, afirmam.

 

O BEM permitiu que as empresas reduzissem a jornada e o salário de trabalhadores em troca de estabilidade, enquanto o Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte) garantiu empréstimos com juros menores e prazo maior de financiamento.

Fonte:G1